Mentes Criminosas

Parte 1

Sem dinheiro, sem trabalho, sem rumo. Esse era Fernando, 21. Também não tinha mais casa, pois há pouco perdera sua identidade interior.
Olhava em todas as direções. Procurava abismado aquilo que não sabia o quê. Não sabia mais o que era certo. Não sabia mais de nada, na verdade.
Fernando nascera em uma família poderosa. Valéria, sua progenitora, era design de produto e fazia desenhos para uma grande empresa que fabricava móveis. Não ganhava nada mal. Seu pai, Lúcio, era um típico homem de negócios. Um estudante de administração que batalhara duro durante todos seus oito meses de faculdade e seus cinco anos posteriores para abrir as portas de sua empresa, estudos incansáveis nos quais culminara na construção de seu império.
“Aí, Dona Valéria, o menino está sendo tratado com muito mimo” – dizia sempre Lourdes, a empregada. Durante seus primeiros 16 anos de vida, sempre tivera aquilo que lhe parecia melhor. Fernando vivia totalmente à mercê de suas vontades e do luxo.
Dava festas a seus amigos e colegas todos os finais de semana. Compareciam religiosamente sempre os mesmos, uns doze. Achavam o máximo poder desfrutar, ao menos uma vez na semana, de todo aquele luxo. Isso atraiu supostos amigos provenientes de outros amigos que Valéria avisava, de pronto, não serem boas companhias e pedia para que se afastasse deles. A casa do garoto agora já era frequentada por uns dezesseis colegas. Fernando realmente não fazia ideia do quão perigoso poderia ser um fortalecimento destes vínculos amigáveis.
Lúcio não tinha tempo para monitorar a vida nem as companhias de seu filho, pois ultimamente trabalhava muito. Dia e noite estudando as possibilidades de um maior lucro; e não tirava os olhos da bolsa de valores.
Valéria continuava dedicando seu tempo ao filho. Suas ideias já não eram tão valorizadas, o que prejudicou na execução de seus desenhos. Seu trabalho começava a render menos. Mas sempre mostrava uma dedicação ao filho; sempre excessiva. Incansável. Era preocupação extrema. Começavam os conflitos entre eles.
Entre uma das idas e vindas da área de lazer de sua empresa, Lúcio ouvira sobre uma nova tecnologia promissora e estudava profundamente sobre sua possível implementação na empresa e seus possíveis lucros. Seriam lucros a longo prazo, mas depois de muitas contas e duas noites em claro, decidiu por aderir àquele serviço.
Um tempo depois, percebeu que este seu investimento não estava gerando altas e proveitosas taxas. Tentava alterar a situação, o que acabou tornando-se impossível!
Enquanto trabalhava na tecnologia, tentando conseguir cada vez mais lucros, tirava um pouco sua atenção da bolsa de valores. Suas ações começaram a despencar de tal maneira que ele nunca pôde prever. Os investidores estavam desconfiados com a possível quebra da firma, pois os lucros já não eram altos quanto antes.
Começava, assim, o grande declínio que afetaria profundamente a vida de todos os integrantes daquela família.

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Parte 2

Depois de três semanas, Lúcio tinha olheiras negras embaixo de seus olhos terrivelmente esbugalhados e parecia ter perdido algo em torno de 4 quilos de massa corpórea, tudo resultado das três semanas sem dormir. Decidiu, por fim, negociar aquele conjunto de dívidas, ao que antes atribuía o nome de empresa. Desistira de tentar reverter a situação.
Valéria soubera da notícia duas semanas antes. Ela precisaria ser forte. Tratou de voltar ao seu atelier. Não obteve sucesso, já que a única coisa que conseguiu desenhar era um móvel com aparência antiga e sem nenhuma utilidade inovadora. “Nenhuma empresa compraria isso”, concluiu.
Na tarde em que Lúcio chegava em casa aos prantos, declarou para sua mulher que venderia a empresa e, como era prevenido e realista, acrescentou que caso os investimentos na bolsa caíssem mais 26%, eles afundariam em dívidas e precisariam se desapossar da casa e de seus bens mais estimados.
Em seu quarto, Fernando chorava. Pouco antes ele tivera discutido com sua mãe por causa da nova namorada, Verônica. O que gerou a intriga, foi o fato de Valéria ver seu filho e Verônica aos beijos ali mesmo, no quarto de Fernando. A garota viera a frequentar a casa da família juntamente com aqueles novos colegas de Fernando. Valéria continuava a achar que não eram boa gente e disse isso tudo na frente da menina. Verônica foi embora correndo, pois não aguentava ouvir falarem mal assim de um grupo que a incluía. Valéria desabafou tudo e disse que precisaria dele e de sua compreensão nesse momento difícil.
Lourdes varria o corredor do quarto de Fernando no momento da briga, parou por curiosidade e acabou ouvindo tudo. Após clamar: “Ai meu São José!”, a visão da empregada foi ficando turva enquanto andava em direção à cozinha… desmaiou.
Valéria, ao ouvir Lourdes caindo, foi ver o que acontecia. Enquanto saía do quarto, Fernando a acompanhava. Ele bateu a porta fortemente, fechando-a. Estava decidido a mudar seus hábitos e tornar-se rebelde. Caiu na cama. Só conseguia chorar.
Ao ver Lourdinha (como era chamada carinhosamente) caída no corredor, Valéria quase entrou em pânico, mas conseguiu encontrar o cozinheiro para acudir Lourdinha.
Cinco dias após o ocorrido, Fernando trazia novamente Verônica para sua casa. Estavam agora sós ele, Verônica e seus amigos, pois as bolsas caíram nada menos que 47% e, em decorrência disso, os pais tinham viajado para resolver algo relacionado com a venda da casa e voltariam só no dia seguinte. Verônica levara o que ele pedira: duas amigas, seus companheiros e algumas gramas da “branquinha”. Beberam o uísque caro de seu pai, importado da Escócia e drogaram-se noite adentro… A noite era uma criança para aqueles adolescentes ali, sozinhos. Já era a segunda ou terceira vez que Fernando participava desse tipo de comemoração.
Eles mudariam não só de casa… As vidas já reviradas, teriam uma nova intriga que demandaria muito mais responsabilidade do que Fernando tivera durante toda sua vida. Uma nova vida surgiria dali, literalmente!

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Parte3

Fernando arrumara toda a casa após a noite de farra e drogas. Foi privado de uma bronca, mas nada comparado àquela que tomaria há treze meses e meio depois.
Surgiram vários desentendimentos no relacionamento de Valéria e Lúcio durante os meses seguintes por conta das saídas desavisadas de Fernando. A mãe começara a notar que o filho não chegava totalmente sóbrio em casa. Ela colocava toda a culpa na ausência de Lúcio durante a infância e adolescência do menino. Lúcio já não aguentava mais ficar todos os dias, em horário integral, ali com a esposa. “Ainda bem que já estou quase contratado” – pensava. Eles já haviam mudado de casa e não conseguiam se acostumar com a casa e nem com o novo estilo de vida.

23 de Março: Fernando comemorava seus 18 anos com sete de seus “amigos”, já que muitos dos antigos não tinham mais contato com ele. Era tarde ensolarada e os adolescentes conversavam e jogavam baralho na varanda externa. Lúcio conseguira emprego e agora não aparecia mais com tanta frequência em casa. Mas neste dia foi à casa e viu a esposa, que queimava de raiva. De imediato, Valéria pediu para que Fernando fosse com os garotos para a piscina, pois precisava conversar com o pai dele a sós na sala de estar. Fernando obedeceu.
No mercado, Valéria fazia compras para a festa de Fernando. Por acaso, encontrou-se com Lourdinha, que fazia as compras do mês. Elas conversavam sobre os novos rumos que suas vidas tinham tomado. Papo vai, papo vem… ouviu, da boca de sua ex-empregada, uma das coisas que mais temia.
Fernando reparou que Verônica não queria despir-se para entrar na água, parecia envergonhada. Ele ficou meio confuso e perguntou o motivo pelo qual ela não queria nadar, já que adorava pegar um sol. Lembrou que fazia algumas semanas que a namorada não ia a sua casa. Verônica disse que precisava lhe contar uma coisa e que o faria assim que tivesse coragem. Ela não contaria apenas a ele, mas sim a todos os presentes!
Na sala de estar, Valéria olhava Lúcio com olhos fatais. Tinha uma real vontade de cometer uma loucura. Contou a Lúcio o que ouvira no mercado e ele simplesmente admitiu que era verdade. Ela, então, limitou-se a tirar o anel que ganhara em seu casamento, atirou-o à janela e ordenou que saísse. Lúcio o fez. Foi para não retornar.
Verônica tomou coragem, ficou de pé e pronunciou para todos:
– Faz dois meses e meio que estou… gr-grávida. – Gaguejou.
Fernando, pasmado, restringiu-se a palavras como “não, creio, como” e algumas outras não identificáveis. Passando as mãos sobre seu próprio rosto, parecia querer acordar a si mesmo. Deu a festa por encerrada, com um sinal. Sem reação, esperou que todos saíssem. Chorou ao lado da garota que seria mãe de seu… FILHO? De um salto, acordou.
Lá dentro, sozinha, Valéria chorava. Não ainda pela vinda de seu primeiro neto. Lamentava, chorando em demasia, a triste decisão de pôr um fim àquele casamento. Sabia agora, pela boca do próprio amado que tinha sido trocada por outra.

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Parte 4

O desenlace – pela visão otimista:

Ao abrir os olhos, Fernando viu-se cercado por paredes brancas. “Como vim parar aqui?”: esta foi a primeira pergunta que pairou em sua mente. Parecia não estar em si. Conseguiu pensar em algo: Sophia. Aguentou apenas quatro, cinco segundos. Escuridão.
Acordou. Pensou muito. Derramou algumas lágrimas. Decidiu, então, que era hora de mudar. E para isso teria que se livrar das drogas: como o faria?

Nos últimos três anos, Fernando agira como um marginal. Ele era tal qual ele imaginou ser. Ele descobriu que estava totalmente viciado e, não tendo como sustentar o vício financeiramente, começou a furtar dinheiro que encontrava na casa de terceiros e na sua própria casa.
Valéria percebera que seus pertences sumiam e foi tirar satisfação com Fernando, pois tinha total certeza de que era ele quem provocava o sumiço dos mesmos. Fernando estava drogando-se em seu quarto há algum tempo quando sua mãe chegou. O homem, já sem controle, acabou batendo em Valéria. Sua mãe, por sorte, conseguiu fugir.
Em choque, Valéria chamou a polícia. A viatura chegou logo em seguida, sem demora. Fernando foi imediatamente levado para a delegacia. Primeira prisão de Fernando foi decretada.
Valéria acordava em um desses dias quaisquer, olhou seu rosto no espelho e notou: precisava cuidar mais de si própria… Precisava cuidar de sua vida.
Verônica deu a luz e dedicava quase todo o seu tempo à filha.

Fernando sabia que agora seria decretada a sua segunda prisão por ter sido pego em flagrante batendo na mulher que roubara naquele mesmo momento. Além disso, desconfiaram dele por conta de sua conduta suspeita. E de fato estava drogado.

Valéria, um ano depois já tinha encontrado outro homem com quem casaría-se mais tarde. Com uma situação financeira boa, agora ela podia frequentar sempre o shopping quando sentia-se nervosa. Era como um remédio. Ela não teve mais nenhum contato com Lúcio e não quis procurar mais seu filho.

Fernando, na cadeia, via Sophia pela primeira vez. Não teve a oportunidade de ver seus primeiros passos, mas reparou que agora ela já andava. Não ouviu a primeira pronúncia, mas quando chegou perto dele, ela proferiu “papah”. Uma lágrima escorria pela face do presidiário.
Aquela era a prova de que alguma coisa tinha valido a pena, apesar de todos os tropeços. Além do mais, sabia que poderia se apegar àquela doce, gentil e inocente criatura, vinda dele mesmo, para superar os piores desafios que ele criara.
Estava disposto a mudar sua maneira de viver e enxergar a vida por ela: Sophia.

FIM

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Malditas Mentes Criminosas

Temos um corpo que age; que faz aquilo que nossa mente comanda.
Tudo que fazemos é fruto da massa pensante: é tudo calculadamente planejado.
Paramos quase sempre e nos perguntamos: quem seria o comandante disso tudo?
Já cansei de fugir da realidade, prefiro agora enfrentá-la com todas as minhas armas. A vida é feita de dúvidas irrespondíveis.
Aprender a fazer escolhas corretas parece impossível. Eu prefiro escolher o caminho mais árduo e passar por uma labutação intensa. Já temos comprovações de que, na maioria das vezes, o caminho mais correto é aquele difícil e o que traz recompensas mais expressivas.
Sendo tão humano e mortal quanto qualquer um, eu que muito aconselho, também muito erro. Mas com toda certeza, exclamo que poderíamos replicar melhor a certas indagações que convêm apenas a nós mesmos respondermos.
As malditas mentes agem criminalmente fazendo-nos optar pelo mais prático e rápido, fazendo-nos cair em tentação.
Não, não nos deixe cair em tentação, comandante triunfal.
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2 Comentários to “Mentes Criminosas

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